AS MENTIRAS

01/11/2013 11:34

                        A situação humana de viver em sociedade e ter desenvolvido em sua alma, para a vida social, as suas mais vívidas emoções é, nitidamente, um conflito. Os nossos interesses para com as outras pessoas são parcialmente comuns e parcialmente conflitantes. Nós somos sócios e adversários, ao mesmo tempo, dos nossos pares na existência. Generosos ou sovinas, dependendo da ocasião. Nestes milhares de anos de convivência, o resultado de uma corrida armamentista cognitiva foi uma capacidade extra para reconhecer trapaças e trapaceiros mas, também, uma refinada astúcia para a mentira, a dissimulação e o fingimento. O segundo ramo desta equação é sempre negado narcisicamente pelas pessoas e combatido asperamente pela cultura. “NÃO LEVANTARÁS FALSO TESTEMUNHO”, reza o oitavo mandamento. Todos fomos criados sob o tabu da mentira. Foi imperdoável a mentira na totalidade dos lares em que fomos criados, ao menos na teoria (havia, até, uma indulgência com os infratores que se acusassem: “quem fala a verdade não merece castigo”).

 

                        Pelo dito, é que é tão difícil aceitar a afirmação de Paul Ekman, aquele cientista que mostrou que as emoções básicas se expressam igualmente em todos os povos do mundo. São iguais, assim, na cara do aborígine de Papua, na Nova Guiné, ou na face dos aristocratas londrinos, as expressões dos afetos. Ekman, pioneiro nos estudos sobre a mentira, afirmou: “O engodo é componente tão central em nossas vidas que compreender melhor este fenômeno é fundamental para quase todos os assuntos humanos”.

 

                        Se nós formos capazes de abstrair a ojeriza moral que cercava, na nossa infância, as nossas pobres mentirinhas infantis vamos, obrigatoriamente, enxergar que desde que os nossos antepassados bíblicos Adão e Eva contaram a primeira lorota para o Criador tentando esconder sua desobediência, a história da Humanidade é um desfile de trapaças, mentiras e enganações. Mark Twain, há mais de um século, afirmou: “mentir é uma habilidade que brota das profundezas do nosso ser e nós a usamos sem cerimônia”.

 

                        É preciso que nós nos lembremos que não há só a grande mentira prejudicial e destrutiva há, também, as pequenas  mentiras e dissimulações do varejo cotidiano. Quando os psicólogos e neurocientistas passaram a estudá-las e às atividades relacionadas, despindo a aura moralista e narcísica que punha a mentira como uma exceção desonrosa para a alma humana, as coisas mudaram radicalmente. Ouvindo com acurácia as conversas diárias gravadas de pessoas submetidas, voluntariamente, a experiências psicológicas, o resultado é um balde de água fria nos avessos à aceitação da real condição humana. Verifica-se que mesmo o mais sincero dos participantes das experiências, mantém a razão de uma mentira, ou equivalente, a cada oito minutos. Em geral, são apenas mentirinhas procurando, constantemente, desculpas para comportamentos que o outro poderia julgar inadequados.

 

                        Os maiores mentirosos, no sentido quantitativo, são as pessoas com grande número de contatos sociais ou profissionais. O resultado destas pesquisas é retirar, pouco a pouco, o estigma sobre as mentiras e os fingimentos. O tabu, ou interdição à mentira, nos foi mostrado de maneira ambivalente na infância. Tínhamos a obrigação da falar a verdade, principalmente para revelar qual de nós, crianças, quebrara o jarro ou pegara o chocolate. Mas, também, tínhamos de ser polidos com a tia avó que vinha fazer uma visita e não fazer cara feia para aquele presente cafona e até elogiá-lo, mesmo de cabeça baixa para nada revelar nos olhos. O que são fingimentos. No fundo, a polidez social é a arte de omitir os fatos negativos no contato com o outro, na tentativa de cooptá-lo.

 

                        Uma mentirinha amável sobre o novo e inadequado penteado da nossa vizinha no prédio vai prestar um bom serviço à convivência pacífica no condomínio. Melhor que a franqueza sem retoques. Quantas vezes, num dia, uma pessoa que tem intensos contatos sociais ou profissionais não tem de fingir ou dizer coisas pela metade? Mente-se por omissão e por intrincadas sutilezas sociais. Estamos, também, em função dos contatos sociais, empenhados em adequar a nossa aparência a eles e esconder as nossas imperfeições. Escondemos aquilo que achamos que nos é desfavorável e realçamos o que de  melhor  temos. Os sutiãs, as tinturas, os espartilhos e as ombreiras são a prova disto. Dizemos: “Muito prazer em conhecê-lo” a um desconhecido que, temos certeza, que nunca mais vamos vê-lo. Enviamos sinceros votos de pesar, ou condolências às pessoas próximas de alguém que muitas vezes achamos que já foi tarde. Mas isto faz parte das nossas obrigações sociais. Nos nossos contatos íntimos, também o fingimento existe. A amante vai tentar fingir um orgasmo para enaltecer o Ego do amante. Este, por sua vez, freudianamente e de bom grado, entra nessa com facilidade. Este talento humano para o fingimento, as mentiras e as artimanhas sutis e até para os embustes não constitui, de forma alguma, uma capacidade para se lamentar, e esta opinião é sustentada por grande parte dos estudiosos de vários campos do conhecimento. Sua origem não vem do lado demoníaco do ser humano, ou de sua infinita capacidade para o mal. Isto compõe, antes, um elemento decisivo de nossa inteligência social e é um fator necessário para o modo gregário de vida de nossa espécie. Sem o engodo, o despistamento e a omissão intencional, as nossas complexas relações sociais seriam impensáveis.