SOMOS TODOS PSICÓLOGOS? (II)

01/11/2013 11:33

                        Pensar em outras mentes e compreendê-las, no mundo dos adultos, é uma coisa tão corriqueira que acabamos nos esquecendo de sua complexidade e achando que só poderia ser assim. Existe, porém, uma categoria de pessoas que pode exibir capacidades mentais específicas até extraordinárias, como a de montar quebra-cabeças e dizer o dia da semana de qualquer ano no passado ou no futuro, sem hesitação, ou a de fazer somas de números imensos, ou mesmo multiplicações, sem usar lápis e papel, mas que é absolutamente cega para a compreensão da mente: a classe dos autistas. O autismo é uma doença que afeta uma em cada mil crianças – as crianças autistas não fazem caso das pessoas e não lhes atribuem mente. Para um autista a mão que você lhe estende é um objeto como outro qualquer. Também você é como uma peça da mobília. Elas, mesmo quando tratadas, por causa desta incapacidade, não são capazes de fingir e não mentem. Mesmo muito inteligentes para outras coisas, não sabem explicar a diferença entre uma maçã ou a lembrança ou o pensamento sobre uma maçã. A hipótese mais consistente da Psiquiatria (bem diferente das hipóteses anteriores, que culpavam as mães ou os pais de frieza emocional) é que o módulo que temos em nossas cabeças para lidar com as outras mentes e que vem conosco na constituição, no caso dos autistas, não foi devidamente instalado ou está danificado. A cegueira para a mente é uma deficiência específica e não é causada por uma insuficiência mental generalizada como, por exemplo, acontece na Síndrome de Down, nome politicamente correto para o antigo mongolismo. Assim, uma criança inteligente para outras tarefas pode ter disgrafia ou dislexia (dificuldades para escrever e ler) ou ser gago. Isto nos informa que os conteúdos do mundo a nossa volta não são absorvidos como um todo pela mente. Eles são entendidos por meio de dispositivos específicos que podem, em alguns indivíduos, ser muito eficientes e até faltar inteiramente em outros. Pode nascer um Mozart meio débil e um  desafinado mas ótimo na atividade política.

 

                        Dentro de nossa capacidade extraordinária de pensar sobre as outras mentes e compreendê-las, nós nos saímos           melhor   ainda   quando  raciocinamos sobre trapaças e trapaceiros. Dentre os animais nós somos os que ajudam largamente os indivíduos não aparentados, isto é, nós somos particularmente propensos a trocas de benefício entre membros das comunidades, ou ao chamado altruísmo recíproco. Os humanos vivemos realizando trocas desde o nosso início: alimentos, utensílios, ajudas, informação, etc. O desenvolvimento de nossas emoções mais importantes que são as em relação aos outros – as emoções sociais – e muito do nosso senso de ética e de moral deriva do nosso altruísmo recíproco. Pode-se ver isto claramente nos mandamentos dados a Moisés. Os quatro primeiros falam das obrigações para com Deus. O quinto é o que nos manda honrar pai e mãe. Mas os outros cinco nos mandam amar aos outros, demonstrar amor pelas outras pessoas e tratá-las como nós gostaríamos que elas nos tratassem, além de não fazer nada para prejudicá-las. Nos ordenam altruísmo.  

 

                        O homem primitivo, sem as armas naturais como as presas e as garras dos seus competidores, teve de trabalhar em equipe para poder sobreviver e, por isso mesmo, desenvolveu o altruísmo recíproco. “Toma lá, mas também dá cá”. Nós competimos uns com os outros mas também aprendemos a, necessariamente, colaborar (trabalhar com). A natureza, ou os deuses, trabalharam muito bem no Homem e apesar de todos os problemas causados por sermos bípedes e inermes, prosperamos e atualmente empolgamos todo o mundo.

 

                        Mas a vida gregária nos obrigou a desenvolver dotes intelectuais e morais para que regulássemos a distribuição de favores. O equipamento mínimo para a nossa vida em sociedade é um detector de trapaceiros e uma estratégia tipo olho por olho, favor por favor, para que se negue ajuda adicional a um trapaceiro explícito. Trapaceiro explícito é aquele que se recusa absolutamente a retribuir ou que vai retribuir com tão pouco que o altruísta recebe de volta bem menos que o custo do seu favor inicial. Mas, o trapaceiro explícito é apenas o lado mais simples da questão. Há, na condição humana, maneiras muito mais elaboradas de trapacear: o trapaceiro pode ser, também, um trapaceiro sutil, que é capaz de retribuir mas só o suficiente para continuar recebendo favores do altruísta, porém menos do que ele pode dar ou bem menos do que o altruísta daria se a situação se invertesse. Isto deixa o altruísta numa posição difícil. Ele é sempre capaz de detectar a trapaça por ter sua mente bem equipada para isso. Mas, sempre fica numa posição difícil. Na verdade, ele está sendo explorado mas se cobrar, efetivamente, a reciprocidade justa, o trapaceiro sutil pode romper o relacionamento de vez. Como metade de um pão é melhor do que pão nenhum, o altruísta está num impasse. É o famoso pegar ou largar. Mas, ele ainda tem um recurso: o de procurar, na comunidade, outro parceiro ou, se existirem, outros parceiros de troca que não trapaceiem, ou que trapaceiem sutilmente mas não sejam tão sovinas como seu parceiro atual. Este jogo vem se tornando cada vez  mais complexo em  sua evolução por centenas de milhares de anos.